Antes do Bento nascer, eu ficava com muito medo do que eu não sabia. Medo de não saber. De não saber o que eu achava que precisava saber. Uma loucura.
A sensação era de que eu estava a beira de um precipício, só aguardando ser empurrada, pensando se eu não deveria estar usando um paraquedas, “porque em algum lugar recomendaram isso”.
Percebia que um dos maiores motivos da minha ansiedade do desconhecido era o TANTO de gente dando pitaco e dicas nas redes sociais. Normal. O mundo é assim hoje e a gente precisa lidar com isso. Mas a cada dica nova que eu me deparava, despertava um pânico em mim de que “meu deus, como eu ia PARIR UM BEBÊ SEM SABER DISSO?”.
Nessas horas, eu percebia que não sabia de muitas coisas, e o pior é que eu não tinha noção nem do que eu precisava ir atrás de saber. Isso me colocou em um modo de constante alerta e confusão. E vamos combinar, já diante de toda a saga que é viver uma gravidez, ter mais essa preocupação era a última coisa que eu precisava.
Foi quando uma amiga me disse: “Julia, na dúvida, confie na natureza.” E isso fez tanto sentido pra mim. Nesse momento, eu decidi abandonar a nóia de tentar me preparar ao máximo pra uma batalha que eu não fazia ideia de como ia ser.
Obviamente, um mínimo de preparo é importante. Não é porque os neandertais conseguiam cuidar de bebês sem certos conhecimentos que é uma boa ideia a gente fazer igual.
Pensar nos neandertais me trazia a tranquilidade de que os bebês são menos frágeis do que aparentam (senão, nossa espécie não teria perdurado tanto) e de que é possível manter alguém vivo sem saber qual a melhor marca de fralda para as primeiras semanas da vida de um recém nascido.
Parece tão óbvio, mas foi quando eu me liguei que eu não precisava dar a luz já sabendo como eu ia fazer meu filho gostar de brócolis. Ou em como eu ia lidar com uma birra dele no shopping. Eu podia ir por partes. E mais importante, eu podia errar e aprender no caminho. Meu bebê não ia morrer porque eu prendi a fralda meio errado e vazou cocô. Eu ia pegar o jeito e aprimorar com o tempo. (E #spoileralert: ia também descobrir que, quando é pra vazar cocô, não tem uma boa troca de fralda que segure a bomba rsrs).
Então assim: para as “mães to be“, fiquem tranquilas, porque muita coisa (senão TUDO) a gente aprende na experiência. Mas entendo da necessidade de vocês de buscar um mínimo de conhecimento sobre ser responsável pela vida de alguém, e em como tornar isso mais fácil e leve, na medida do possível.
Por isso, reúno aqui alguns aprendizados e dicas da minha experiência no maternar, que podem ser úteis para sua paz de espírito.
Lembrando que nada do que digo aqui é uma verdade absoluta. É o que funcionou pra mim, no meu contexto de vida, com o meu bebê. Tudo é muito relativo e pode fazer ou não sentido para outras maternidades.
- A maternidade só é muito pesada quando a paternidade é muito leve.
Se o contexto da sua maternidade se encaixa em um relacionamento heteroafetivo entre você e seu parceiro, esse aprendizado é a base de tudo.
Não existe a menor possibilidade de uma mãe ter uma maternidade mais tranquila se o pai fica de escanteio!
A ÚNICA RESPONSABILIDADE DA MÃE NO PÓS PARTO É DESCANSAR E AMAMENTAR!
“Ai mas tem que revezar as madrugadas porque o pai trabalha no dia seguinte”.
Não existe isso. A mulher não revezou a gravidez.
O pai atuar para a recuperação da mãe no puerpério não é “ajudar”, é fazer o mínimo.
Mesmo na licença maternidade, a mãe precisa estar bem e descansada para poder cuidar do bebê durante o dia. O sono de qualidade não é luxo. É fundamental. - O curso de cuidados com recém-nascido serve mais para a sua tranquilidade do que para saber se virar quando o bebê nasce
Fizemos dois cursos preparatórios: o oferecido pelo convênio e um particular, com uma enfermeira.
As pautas foram muito parecidas e nos deram uma noção básica do que um bebê precisa pra sobreviver, então isso nos tranquilizou.
Mas na hora que o Bento nasceu, eu não lembrava de mais nada e aprendi ali, na vivência, e com a ajuda das enfermeiras na maternidade.
Por isso, pra mim não fez sentido pagar um curso particular para ter acesso à essas orientações.
O curso do convênio já foi suficiente e também tem muito vídeo no youtube que ensina sobre os cuidados básicos, como primeiros socorros, trocar fralda, dar banho, etc. - A consultoria de amamentação fez TODA a diferença
Não amamentei por muito tempo, mas as orientações que recebi da nossa consultora de amamentação fizeram toda a diferença no início de vida do Bento.
Mas friso também que QUEM nos deu a consultoria é a dica mais importante aqui.
Fizemos consultoria com a Maria Celestina Bonzanini, uma das maiores especialistas em aleitamento materno no Brasil.
Ela me acolheu e trouxe muito conhecimento sobre a nossa natureza como mamíferos, o que deu total sentido a tudo o que eu estava vivendo no puerpério.
Me orientou sobre como cicatrizar feridas utilizando apenas o leite materno, como massagear e estimular a produção de leite (corretamente), como a amamentação por livre demanda é importantíssima tanto para a saúde do bebê como para o vínculo emocional com a mãe.
A Celestina marcou meu puerpério do jeito mais especial possível, e sei que o Bento hoje é esse bebê saudável, livre e bem descansado por causa dos conhecimentos que ela compartilhou com a gente.
Se for consultar com alguém sobre amamentação, certifique-se de que essa pessoa entende da natureza humana e não é do time “dar muito colo mal acostuma o bebê”. Isso não faz o menor sentido e pode tornar o maternar muito mais difícil.
Tudo tem sua hora, e no começo da vida, o bebê precisa muito da proximidade com você. Afinal, você foi a casa dele por 9 meses. - O banho de chuveiro é maravilhoso por tantos motivos
E pode ser dado já nos primeiros dias de vida.
Aqui em casa, foi bom porque:
a) Quem dava o banho de chuveiro era o pai (essa é a recomendação), e o contato pele com pele foi essencial para que o Bento se apegasse também ao colo do João (ou seja, um pouco de alívio e descanso para mim).
As poucas vezes que eu entrei no chuveiro junto, o Bento saía do modo “relaxado” e queria já pular no meu colo pra mamar. Não dava muito certo.
Então, percebi que enquanto a mãe vive a amamentação, o banho de chuveiro é o laço mais íntimo que o pai pode ter com o bebê.
“Ai mas meu marido tem medo de segurar o neném”. Essa é a frase mais ridícula que já escutei sobre essa história do pai dar banho no bebê.
E se a mãe também tiver medo? O neném fica sem banho?
Me irrito. Filho não se faz sozinho e a responsabilidade é dos dois.
b) O som do chuveiro lembra o som do útero, e isso acalmou muito o Bento no início da vida.
c) É muito mais higiênico. Primeiro que se o bebê faz xixi na banheira a gente não vê e fica dando banho com xixi. Segundo que: imagina ter que interromper o banho pra desinfetar a banheira porque o bebê fez cocô? E depois ter que começar tudo de novo porque, bom, rolou um cocô ali?
Desnecessário, eu diria. No chuveiro, xixi e cocô vão pro ralo e não tem estresse. É muito mais rápido e o bebê sai 100% limpinho. - O melhor lugar para manter os itens do “kit higiene” é uma cesta
Tudo fica paradinho em pé, sem correr o risco de tombar na hora da troca de fraldas. Além disso, fica tudo ali a mão, no mesmo lugar: fralda, lencinho, algodão, álcool, cotonete, hidratante (sempre com pump)…
Na hora de pensar na dinâmica do trocador, pense sempre se você consegue se virar com uma mão só. Isso vale tanto pra escolhas de produtos (modelo de garrafa térmica) quanto para o puxador de gavetas. - O berço convencional pode não ser útil por muito tempo
Nos primeiros meses de vida, o Bento dormiu no moisés do carrinho ao lado da nossa cama. E quando passou para o quarto dele, colocamos ele para dormir no “ninho” em cima da cama de solteiro, que fica rente ao chão. É uma cama que ele vai utilizar durante toda a infância e poupou mais uma futura reforma no quarto.
Agora ele começou a querer ficar em pé sozinho… E por mais que a cama tenha grade, o Bento é muito destemido e fica tentando escalar os móveis, por isso compramos um berço portátil com cercadinho e mosquiteiro, (que poderia ter sido útil nos primeiros meses também) e hoje vai servir para quando formos viajar. - Não gaste muito dinheiro com roupas de bebê
Eles perdem tudo MUITO rápido. Por isso, só compramos roupas em brechós. Bebês usam roupas novas por pouquíssimo tempo, por isso, tudo o que encontramos em brechós costuma ter MUITA qualidade. Afinal, os itens estão praticamente novos.
Na última vez que fomos fazer compras no brechó, compramos um total de 6 peças variadas (bodies, shorts, macacões) por R$56. Tudo de marcas como Hering Kids, Carters, Renner. Com esse preço você não consegue comprar mais que uma peça nova nessas lojas.
Claro que é preciso garimpar, mas sempre vale a pena.
Por aqui, costumamos ir nos brechós da rede Cresci Perdi, mas tem vários. - Compre fraldas aos poucos
Assim, você consegue testar os melhores modelos e marcas. Por isso, não acho uma boa ideia fazer um “chá de fralda”. Além de não saber se o seu bebê pode ser alérgico a alguma ou não se adaptar a algum modelo, corre o risco de você perder fraldas por conta do tamanho. - Para o bebê ter uma boa noite de sono, o quarto deve ficar um breu total
Esse foi um dos aprendizados que tivemos com a Celestina. Durante a noite, ela nos orientou a tampar TODAS as fontes de luz do quarto, seja de equipamentos eletrônicos ou de portas e janelas.
Uma mínima luminosidade pode influenciar na melatonina do bebê, fazendo com que os despertares sejam muito mais frequentes. Com essa dica, o Bento teve noites de sono de 8 horas já com 2 semanas de vida. - A noite é feita pra dormir, e não pra mamar
Mais uma dica de Celestina: não é necessário ficar acordando o bebê a cada 3 horas para mamar. O sono noturno é muito importante para o crescimento saudável do bebê.
Se o bebê quiser mamar, ele vai despertar e chorar por isso no tempo dele, o qual pode sim ser a cada 3 horas. Mas quem dita a regra deve ser ele.
Por isso mesmo, a amamentação sob livre demanda (ou num intervalo máximo de 3 horas) durante o dia é importante. O bebê que se alimenta melhor durante o dia descansa melhor à noite. - Bebês choram muito
Isso não é bem uma dica. É mais uma constatação que muitas vezes a gente esquece. Você vai se pegar desesperada algumas vezes porque o bebê não para de chorar. Fome, sono, tédio, calor… Nem sempre você vai acertar o motivo e bom, pensa comigo: se até a gente que é adulto chora “à toa”, imagine um bebê.
O choro do bebê não deve ser ignorado, mas nem por isso você precisa se descabelar para tentar entender o motivo.
Acolha-o, e essa é a melhor coisa que você poderá fazer como mãe. - Massagem para cólica
O Bento não sofreu tanto de cólica, mas teve bastante dificuldade para fazer cocô (condição chamada disquesia). Essa massagem aqui ajudou MUITO e o João costumava fazer durante o banho, quando ele ficava mais relaxado:
https://youtu.be/UGpIF2wCLjo?si=QBEifyju3T3SA4T1 - A rotina de sono não é boa apenas para o bebê
Se o Bento não tivesse rotina de sono, João e eu raramente teríamos um tempo de qualidade para nós dois.
A partir dos 3 meses, o Bento começou a dormir no próprio quarto. Nessa fase, você já perdeu um pouco a paranóia e se acostuma com o que cada “suspiro” ou “ruído” significam (na maioria das vezes, nada).
A gente dava banho e colocava ele para dormir umas 19h. Com isso, tínhamos um tempo bom para curtir um jantar a dois, assistir um filme e ainda ir dormir cedo “até a próxima chorada” rsrs. - Noite de date semanal
Já na terceira semana de puerpério, minha mãe e irmã ficaram com o Bento aqui em casa para que eu e João pudéssemos sair para jantar só nós dois. Combinamos de fazer isso toda terça-feira e temos dates semanais desde então.
Confesso que às vezes o sono é gritante, a auto estima tá no chão e a preguiça é muito forte, mas insistir nesses momentos vale a pena.
Não só é bom para o relacionamento, mas me faz lembrar que eu não sou apenas mãe. Antes de tudo, sou mulher.
É bem possível que essa lista seja revisitada e alimentada com novas dicas várias vezes. O Bento vai fazer 8 meses semana que vem e todo dia eu aprendo alguma coisa diferente, e acho que esse é o especial do maternar. As coisas mudam todo dia, e quando você acha que entendeu tudo, aparece um novo desafio pra lidar.
Hoje eu lembro de como estava nervosa antes do Bento nascer e percebo como lidei com tudo tão bem. Aprendi com leveza, com paciência e acolhimento comigo mesma, o que fez toda a diferença.
Eu sei que muitas mães falam que é uma exaustão bizarra, e sim, tem momentos que bate um desespero mesmo, mas confesso que, pra mim, têm sido mais fácil do que eu imaginava que seria. E muito disso se deve à tranquilidade de não tentar controlar tudo, de permitir-se rir dos atrapalhos, de lembrar que os bebês choram e que você está sempre dando o seu melhor. Que tomar um banho demorado não é negligenciar o seu bebê.
Pelo amor de deus, é incocebível para mim uma mãe com rede de apoio e privilégios não poder conseguir lavar o cabelo “porque não teve tempo”. Se isso acontece, tem algo muito errado aí e a dinâmica precisa ser revista.
Por isso, diria que o maior aprendizado até o momento é: não deixe de cuidar de você. A negligencia com nós mesmas vem numa facilidade assombrosa. Chega a ser tentadora, pois agora temos a melhor desculpa para nos abandonar. Mas lembre-se de que para cuidar do outro você precisa estar bem.
Deixe um comentário