Esse texto é sobre o preço alto de evitar conflitos.
Sei que muita gente que fala sobre assuntos como esse já tá com a equação resolvida na hora de escrever. Não é bem o caso aqui.
Esse não é um texto de autoajuda.
Evitar conflitos/brigas/discussões é um comportamento que me assombra há muitos anos, e eu sigo na luta para que ele consuma minha autoestima cada vez menos.
Isto é, eu ainda não resolvi nada, e muito menos tenho um passo a passo pronto sobre como deixar de ser assim. Mas reconhecer que isso me adoece talvez seja o primeiro passo para me libertar.
“Ninguém gosta de lidar com uma mulher difícil.”
Ainda que esse texto seja sobre uma experiência minha, não é de se surpreender que essa seja uma dor coletiva.
Por séculos e gerações, nós mulheres fomos ensinadas a priorizar a harmonia social e o bem-estar do outro. Isso desde a infância, de jeitos sutis ou bem diretos.
“Seja boazinha.”
“Olhe como você fica mais bonita sorrindo!”
“Não incomode.”
“Deixou os modos em casa?”
“Ih, acordou de cara amarrada?”
“Menino é difícil mesmo… Tente relevar.”
“Querida, não vale a pena discutir. As pessoas sabem como você é.”
Então, mulher, se você ficou com a sensação de já ter vivido isso antes, talvez hoje faça parte da tribo de mulheres fortes que anulam a própria voz, “porque ninguém gosta de lidar com uma mulher difícil“.
Mulheres que confrontam são vistas como agressivas, desequilibradas ou exageradas. Homens que confrontam têm “personalidade forte”, “sabem o que querem” e “só estão defendendo os próprios interesses”.
Isso é bem ridículo, eu sei, mas não vou me alongar muito nesse ponto.
Se você, assim como eu, já conseguiu se livrar dessa visão deturpada e, mesmo assim, enfrenta dificuldades para se impor, talvez tenha percebido que a situação vai um pouco além da misoginia.
Livres, leves e corajosas
Gente que fala o que pensa muitas vezes é vista como “doida”, “desbocada”, “sem noção”. Mas minha percepção vai além. Penso que essas pessoas são livres. Livres pra falar, desapegadas do sossego, e leves pra lidar com qualquer consequência que possa vir de um ato sincero.
Não só livres, mas vejo essas pessoas como corajosas. Pois “como assim vocês não têm vontade de ir embora pra casa quando o outro não concorda com a sua opinião?“
(Também não entendo como advogados conseguem discutir sem chorar, mas aí já estamos falando de um nível mais avançado em autocontrole emocional.)
Pontuar um desagrado sempre tem uma consequência. E se der tudo certo, vai abrir um diálogo sem contra-ataque, compassivo e acolhedor. Pra fechar 5 estrelas, então, não vai nem ter climão depois.
Pena que a gente não tá discutindo com um golden. Em uma discussão, a tendência é a outra parte ser bem diferente de um golden, inclusive, e é essa possibilidade que me convida pro silêncio.
A vida de quem não quer incomodar quem incomoda é realmente ótima. Por um total de cinco minutos. Depois a culpa engole, e aquela falsa sensação de plenitude evapora, como se nunca tivesse estado ali.
Essa falsa sensação de plenitude surge daquela menina interior que foi educada a priorizar a harmonia; que diz “não vale a pena. Releve que você sai ganhando.”. Mas essa sensação também é enganosa porque a mulher que você é hoje tem, sim, coisas a dizer. E quando você não diz nada, você se trai. No fim, ficamos aí – com uma autoestima que foi dar uma volta em Paris e não voltou até hoje.
A empatia tóxica
A decisão de não se impor nem sempre vem de uma invalidação própria. Ela pode surgir de um hábito aparentemente inofensivo e muito bem quisto em inúmeras situações: colocar-se no lugar do outro.
Não tem problema nenhum a gente se colocar no lugar do outro em uma discussão. Na verdade, esse é um dos segredos para preservar boas relações. Mas vejo que o problema é colocar-se no lugar do outro antes de mais nada. Todas as vezes. É compreender TANTO o outro a ponto de esquecer de si. E isso é o que eu chamo de empatia tóxica – quando o excesso de compreensão vira anulação.
Se a gente for parar pra pensar, um filho empático é o sonho de todo pai e mãe. Acontece que o filho empático também costuma ser o adolescente que leva xingo na escola e não revida, “porque bom, se fulano trata os outros assim, deve ser maltratado em casa…”
Posso estar sendo bem polêmica aqui, mas conto com o discernimento de vocês para compreender que não sou inimiga da empatia, ok? Penso que o mundo carece muito de pessoas mais empáticas, inclusive. (Desde que elas saibam revidar um bom soco).
O problema está na empatia sem autoestima, porque ela abre espaço pra autosabotagem. Você deixa de se posicionar, de se proteger e de tomar atitudes que fariam bem pra você, tudo pra evitar conflito, desagradar ou “não ser uma pessoa difícil”.
Eu, Julia, sofro de empatia tóxica.
A Julia tranquila é a mesma Julia que não cobra um compromisso que o marido assumiu “porque ele já trabalha demais”.
A Julia boazinha é a Julia que segue sendo a amiga leal, mesmo depois de ficar de fora de um evento com todas as outras amigas — porque “na correria, a pessoa deve ter esquecido de convidar”.
A Julia good vibes é a mesma que ouve grosseria em público e responde com um sorriso educado. Porque “deus me livre deixar todo mundo constrangido com um climão”.
A Julia é uma pessoa muito boa e que sabe ouvir os outros.
Ela só precisa começar a se ouvir também.
Uma casa abandonada
Aqui, onde o outro precisa gostar da gente pra gente se gostar, é frio e não tem luz.
Viver sem autoestima é viver em uma casa abandonada. Você espera a todo momento que alguém venha te acolher e trazer conforto… quando na verdade, você precisa se tirar dali.
Do contrário, qualquer ajuda alheia sempre vai trazer alívio com prazo de validade. O frio volta. E o escuro também.
Eu nem sempre vivi em uma casa abandonada. A depressão me convidou pra cá, e aos poucos, fui ficando.
Mas do que me recordo, eu fui uma criança e uma jovem livres. Tinha empatia E autoestima. Talvez não em todas as circunstâncias, claro… mas pelo que lembro, não enfrentava grande dificuldade em sustentar minhas narrativas.
Hoje, fazer isso não é só complicado. Fazer isso dói.
Abrir uma discussão me demanda uma coragem ridícula. Sustentar minha posição mediante um contra-ataque, então, me drena.
Mas não fazer nada é muito pior.
O problema não está em agradar outras pessoas ou em buscar sempre a paz e a harmonia nas relações. Mas, se ao fazer isso, você desagrada a si mesma, a conta chega. A conta sempre chega.
Ela vem em forma de ansiedade, cansaço, insegurança, desmotivação, isolamento social, vazio interior, dificuldade em dizer não, sensação constante de sempre estar devendo algo para alguém…
E no fim, o preço a gente paga com o que tem de mais precioso: nós mesmos.
O mundo nem sempre é um lugar justo
E não digo isso para desanimar. Digo isso para lembrar que os conflitos fazem parte da vida.
Não to dizendo para ninguém aqui sair armando barraco porque colocaram passas no arroz.
Vamos escolher nossas batalhas. É clichê, mas o clichê só é clichê porque funciona (e é verdade). Só não dá pra escolher a batalha e se esconder atrás da árvore quando a hora chega, porque essa é a paz que adoece.
Como eu disse no começo, eu ainda não resolvi nada e nem tenho grandes conselhos para oferecer.
Hoje eu tô só dividindo a bagunça…
Minha vontade de evitar conflito segue firme, forte e bem alimentada.
Mas agora, pelo menos, ela sabe que está sendo observada.
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