As pessoas dizem que eu mudei.
Que perdi minha leveza, a espontaneidade, o alto astral.
Dizem que já tive mais vida.
Ouvir isso é curioso e, às vezes, incômodo — porque revela como essa minha faceta mais séria se sobrepõe, aos olhos de fora, a um engrandecimento de caráter que só vem com o amadurecimento.
Enquanto a idade fortalece, a maternidade engrandece.
Ela planta na gente sementes que fazem falta à humanidade: paciência, coragem, resiliência, amor.
Só que isso quase nunca é visível.
Por fora, muitas vezes sou ombros curvados, bocejos, um sorriso de canto que nem sempre chega aos olhos.
Mas, por dentro, sou águia.
Sou sábia.
Sou mãe.
Sou mulher com todas as letras e de todos os jeitos.
Sou muito mais do que um dia já fui.
Tem ficado bem claro como somos resistentes ao amadurecimento… Não me refiro à crianças mimadas de 27 anos, mas de um mantra comum de que tudo pode ser leve. De que o dia a dia deveria ser menos sério.
Nosso apego à juventude chega a ser pueril.
A gente passa a vida tentando encaixar sorrisos em uma ida ao cartório.
E vamos combinar… Tem dias que simplesmente não serão felizes, e dar-se conta disso é como jogar uma praga no cultivo da serenidade.
Aceitar que a felicidade não deve ser a meta é atordoante. Não é para isso que nascemos? Não é isso que nos ensinaram a buscar?
Comecei a ler o livro “Não Acredite em Tudo Que Você Sente”, de Robert Leahy, buscando sentir menos tristeza, menos desamparo, menos ansiedade.
Mas ele me puxou pelo braço, sem gentilezas, para a verdade de que o objetivo da vida não deve ser livrar-se dos sentimentos ruins, mas viver uma vida sendo capaz de sentir TUDO – os sentimentos bons E ruins.
Isso foi meio revoltante.
Eu não queria aceitar a tristeza.
Não queria naturalizar a ansiedade.
Eu não estava preparada, e imagino que muitos outros leitores que começam uma jornada de estudo sobre esse tópico também se sintam assim.
Se formos parar pra pensar, é muito difícil que alguém, em um ápice de felicidade quase infantil, resolva ler um livro de autoajuda sobre como lidar melhor com as emoções. Quem começa a ler sobre isso não quer escutar que a tristeza faz parte da vida. Quer é saber como se livrar dela. E quem tá feliz também não lembra que a tristeza sempre volta.
A felicidade é aquela lente que te convence de que finalmente você está vivendo certo, de que o rumo natural da vida é esse estado de distopia eufórica com cheiro de café e grama recém cortada.
A felicidade é perigosa e passageira.
É perigosa justamente por ser passageira.
Mas a gente nunca acha que é. Nem perigosa, nem passageira.
Talvez meu erro tenha sido esse: acreditar que amadurecer emocionalmente é sofrer menos, quando, na verdade, amadurecer é aprender a sentir tudo.
As emoções não seguem uma linha reta.
São cíclicas.
Vêm, vão, retornam — independentemente do quanto amadurecemos.
O que me pega é parecer que me tornei uma pessoa desinteressante, quando, no fundo, sei que me tornei mais complexa.
Eu engrandeci por dentro.
Será que as pessoas não enxergam isso?
Será que gostavam de quem eu era e agora acham que estou apenas “passando por uma fase”?
Eu não sou mais aquela Julia.
E sendo bem realista, não vou voltar a ser.
Me incomodam as expectativas.
Me incomodam as conclusões precipitadas, as insensibilidades, as ponderações injustas.
Me incomoda não ser compreendida.
Me incomodam os mergulhos no raso quando sou um oceano inteiro.
Hoje, tenho mais Julias dentro de mim do que jamais tive.
Nem todas são visíveis.
Mas, quem sabe, não precisem ser.
Em alguns dias, isso vai ter que bastar.
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